O que o optometrista não deve esquecer acerca da Diabetes

A International Diabetes Federation (IDF) estimou que, em 2012, o número doentes com diabetes no mundo ascendia as 371 milhões de pessoas e que esse número iria duplicar nos próximos 25 anos. Neste mesmo ano, a doença causou a morte a 4,8 milhões de pessoas, metade das quais com menos de 60 anos.

Portugal coloca-se entre os países da Europa com maior prevalência da doença (12,7% da população com idades entre os 20 e os 79 anos). O que corresponde a aproximadamente 1003 mil indivíduos. Dados segundo o Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes 2012.

Tendo em consideração o aumento exponencial da doença na população, à sua progressão silenciosa e às possíveis consequências oculares, torna-se fundamental a integração do optometrista na equipa de profissionais de saúde habilitados a lidar com o doente diabético. Uma boa articulação com o médico de família, oftalmologista e endocrinologista permite o bom seguimento de cada caso.

Com relativa frequência, o optometrista é o primeiro profissional a relatar possíveis sinais da presença da doença, quer por manifestações oculares (alteração da qualidade de visão e/ou patologias oculares associadas), quer por reconhecimento na sintomatologia inerente à doença.

Recordando…

A Diabetes é uma patologia metabólica, caracterizada pela alteração do mecanismo de regulação da glicose no sangue (glicemia). O portador da diabetes apresenta uma condição de hiperglicemia resultante da insuficiente produção (ou resistência) à insulina.

Os principais sintomas são: Poliúria (urinar muito), Polidipsia (ter muita sede), Polifagia (ter muita fome), emagrecimento repentino, fadiga generalizada, dores no corpo, xerostomia (sensação de boca seca), visão turva, dores de cabeça, náuseas e vómitos.

O diagnóstico é realizado a partir da medição da glicemia em jejum (FPG), glicemia ocasional (RPG), prova de tolerância à glicose e hemoglobina glicosilada (HbA1c).

Valores de testes sanguíneos para o diagnóstico da diabetes e pré-diabetes.

Figura 1 – Valores de testes sanguíneos para o diagnóstico da diabetes e pré-diabetes.

Conheça os principais sub-tipos:

  • Tipo 1, caracteriza-se por ser uma doença auto-imune (as células β do pâncreas são atacadas e destruídas pelo sistema imunitário), como tal existe uma incapacidade do organismo em produzir insulina. Tende a ser diagnosticada antes dos 30 anos e não está directamente relacionada com hábitos de vida e alimentação errados. O portador necessita sempre de insulina injectável.
  • Tipo 2, é o tipo mais comum e caracteriza-se pela insuficiente produção de insulina e/ou resistência do organismo à mesma (o portador não é dependente de insulina). O diagnostico é feito geralmente a partir dos 30 anos, ainda que o número de casos em jovens esteja a aumentar, estudos recentes revelam que 1/3 dos novos diagnosticados têm entre 10 a 20 anos. Pode estar associada a condições de hipertensão arterial e colesterol elevado.
  • Diabetes Gestacional, ocorre durante a gravidez como resultado de uma diminuição na sensibilidade à insulina. Habitualmente esta condição desaparece após o parto. No entanto, existe uma probabilidade de 50% das mulheres desenvolverem o tipo 2 ao longo da vida.

Sabia que…

– Pacientes do tipo 1 tem maior probabilidade de sofrerem de complicações associadas à doença, no entanto o tipo 2 sofre de mais complicações devido ao seu número elevado (estima-se que por cada tipo 1 existam 13 tipo 2)!

– Pacientes tipo 2 apresentam um risco superior de mortalidade associada a complicações cardiovasculares.

Pergunte pela monitorização da glicose

Todos conhecemos a importância da monitorização diária da glicemia por parte dos portadores da diabetes. No entanto, estudos afirmam que apenas 50% dos diabéticos o fazem de forma regular.

Como optometristas, devemos esclarecer o nosso paciente com diabetes acerca da sua doença. Promovendo uma relação próxima, ajudando-o a ultrapassar barreiras e atingir objectivos. Incentive a prática de exercício regular, alimentação cuidada e desenvolvimento de um estilo de vida mais saudável. Reforce a importância do controlo e monitorização diária da glicose no sangue e exemplifique o quanto isso pode afectar a sua qualidade visual.

Um bom controlo dos níveis de glicemia diminui o risco de desenvolvimento de retinopatia diabética no paciente com diabetes tipo 1 e 2.

A Hemoglobina Glicosilada (HbA1c)

“A hemoglobina glicosilada ou glicada (HbA1c) é uma forma de hemoglobina presente naturalmente nos eritrócitos humanos. É formada a partir de reações não enzimáticas entre a hemoglobina e a glicose. Quanto maior a exposição de hemoglobina a concentrações elevadas de glicose no sangue, maior é a formação dessa forma glicada” (1).

A HbA1c é um dos métodos de excelência no diagnóstico e controlo da diabetes. Com este valor, expresso em percentagem, pretende-se conhecer o valor médio da glicemia dos últimos 3 meses, descartando alterações de concentração episódicas. A American Association of Clinical Endocrinologists (AACE) recomenda um HbA1c abaixo dos 6,5% (consideram-se normais valores entre os 4-6%).

Conhecer a HbA1c do doente diabético significa proporcionar melhor cuidados de saúde.

Não esqueça!

– A progressão da retinopatia diabética é reduzida em 43%, por cada 10% de redução da HbA1c (A relação mantêm-se linear até a HbA1c atingir os 5%). Por isso é tão importante conhecer a HbA1c de cada paciente(2)!

– O controlo da tensão arterial é fundamental para a prevenção de doenças oculares e reduz significativamente o risco de complicações cardiovasculares associados à diabetes (3).

 

 

(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Hemoglobina_glicosilada

(2) (3) Obtido a partir dos estudos: Diabetes Control and Complications Trial (DCCT), The United Kingdom Prospective Diabetes Study (UKPDS).

Figura 1 retirada de http://diabetes.niddk.nih.gov/dm/pubs/diagnosis/

Este texto baseia-se no artigo “Ten things every doctor of optometry should know about diabetes” de A. Paul Chous.
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